sobre terremotos
e algumas réplicas artísticas
nas aulas de geografia durante o ensino básico, aprendi muitos conteúdos que guardo até hoje, como nomes de capitais, bandeiras, relevos, biomas, hidrografia, mapas políticos e temáticos, dentre os quais ressalto este:

em termos sismológicos, o brasil é um país abençoado. na mesma parte do material em que estava esse mapa, que mostra o país descansando tranquilo em cima da placa sul-americana, e desenhos simples a simular os movimentos das placas tectônicas, víamos também fotos de estragos causados por terremotos em outros locais menos afortunados, espaços moventes, nos quais a população é refém da imprevisibilidade desse evento natural. aprendemos sobre os tremores na teoria, sabendo que provavelmente nunca sentiremos alguma grande alteração na escala richter em nossas cidades, uma preocupação a menos em uma sociedade que já tem assunto suficiente para se preocupar.
a principal força que rege o terremoto é o acaso. vivemos em um globo com características geológicas cambiantes e, por mais que saibamos exatamente onde são as falhas e que estão sempre em movimento, não podemos saber quando é que elas vão se encontrar exatamente, nem de que forma ou com qual magnitude. estima-se que acontecem mais de 100 mil terremotos por ano pelo mundo1, a maior parte deles sutil e breve, porém há a chance iminente de que um desses seja grande e cause um estrago substancial, como o que teve na costa leste da rússia em meados desse ano, ou o que atingiu a turquia na semana passada, apesar de ter sido bem menos grave do que o ocorrido em 2023 neste mesmo país.
viver em uma zona de movimentações tectônicas, um lugar que pode virar um epicentro de atividade sísmica a qualquer momento, é praticamente um ato de fé. países que sofrem com os tremores têm planos de evacuação dentro dos edifícios, rotas de fuga em caso de tsunami, missões de reconstrução após terremotos graves, e o japão tem até um órgão público dedicado exclusivamente a isso, mas nada disso traz segurança em relação a esse fenômeno que, francamente, é um dos mais espantosos pelos quais alguém pode passar, em particular pela ausência total de sinais que indiquem o seu acontecimento.
o meu contato com terremotos ao longo da vida se resume a notícias ocasionais, textos acadêmicos e obras de arte. por meio destas, nas últimas semanas tive um contato mais acentuado com o tema, e quis deixar algumas impressões aqui.
na pós-graduação, uma das minhas leituras obrigatórias foi um livro-ensaio de juan villoro2 sobre o terremoto de 2010 no chile, intitulado “8.8: el miedo en el espejo” (não traduzido para o português). o autor, que já havia passado por diversos abalos sísmicos no méxico, seu país natal, estava em santiago participando de um congresso de literatura no dia 27 de fevereiro, quando a terra tremeu e um capítulo da sua história se repetiu, dessa vez mais ao sul e com uma magnitude de 8,8. movido pela coincidência inacreditável de presenciar dois dos terremotos mais intensos da américa latina desde a invenção do sismógrafo, villoro decide escrever sobre o ocorrido utilizando não somente sua própria voz e lembranças de tremores passados (com destaque ao de 1985 na cidade do méxico), como também os testemunhos de várias pessoas que estavam lá e passaram por este, seus “companheiros de bordo”.
o que chama atenção na escrita de villoro é a facilidade de misturar gêneros, de transitar entre estilos e manter uma perspectiva autobiográfica, subjetiva, na qual os acontecimentos narrados coexistem e se intercruzam. sua discursividade é impulsionada pela memória, ao mesmo tempo real e ficcionalizada, bastante fragmentada, feita de partes que se complementam a partir de quem as escreve. há uma tentativa de ressaltar a dimensão épica do cotidiano - toda situação vivida pode se tornar um fio condutor de alguma ideia, de uma história a ser contada.
no prólogo de “8.8”, ele fala sobre o seu pai que, ao contrário dele e de boa parte das pessoas da sua geração, que optavam por deitar com camisas e cuecas aleatórias durante toda a vida, em recusa à imagem infantil ou decadente associada ao “uniforme de sonhar”, dormia de pijama. villoro rememora isso pois, na madrugada do terremoto, já em 2010, quando o tremor finalmente para e todos os hóspedes se reúnem na frente do hotel, ele percebe que a grande maioria das pessoas está de pijama, exceto por ele, algumas pessoas com roupas casuais, um alemão com uma lanterna ajustável na cabeça e um brasileiro de sunga. dormir é uma atividade íntima e a forma como dormimos também o é, uma intimidade pela qual o terremoto não teve consideração alguma, como geralmente não tem por nada; afinal, não tem tempo, nem hora, nem lugar para um sismo irromper.
essas observações curiosas, quase anedóticas, que villoro faz de coisas como as roupas utilizadas em um momento como aquele, são o que lhe permite unir várias pontas discursivas em seu relato, especialmente quando se juntam às conversas e à coleta de depoimentos dos colegas que estavam por lá também. primeiro, aparece a seção das “premonições”: a psíquica que estranhou a lua na noite do dia 26, o amigo que se incomoda com a revoada dos pássaros e a água evaporante da piscina, o calor esquisito que fazia naquele dia, o hamster do filho de um conhecido que foge da gaiola e tenta cavar um buraco no chão.
nas réplicas, quando descreve a reação dos envolvidos, lembra do amigo que liga para a mulher durante o terremoto, da argentina que acorda quando sente a terra tremer e decide voltar a dormir, das amigas hospedadas em hotéis diferentes que tentam trocar mensagens de texto em meio ao caos, do colega mexicano que tuita ao vivo todas as suas impressões e atualizações, do brasileiro que se refugia na banheira pois havia lido que era o lugar mais seguro em caso de desastres naturais, confundindo o sismo com um furacão, do taxista que pensou que seus passageiros estavam em um momento íntimo na hora em que começou o tremor, entre tantas outras figuras que compõem esse mosaico espirituoso de uma situação dantes pesada, difícil, catastrófica.

a foto acima foi tirada na cidade de concepción, epicentro do terremoto. logo após o abalo, o local também enfrentou o avanço do mar, em que houve de fato a devastação característica desse evento, muito menos fatal do que em outras ocasiões mas ainda com um número considerável de vítimas. não se refuta o aspecto destrutivo do sismo no livro, mas para o autor, o propósito da sua narrativa é chegar o mais próximo possível do que não pode ser dito. villoro aborda os efeitos sociais e ambientais do acontecimento, mas esses aspectos apenas tangenciam a intenção da sua escrita, focada no resgate das sensações experimentadas no dia e da “reconstrução de um microcosmo”, em deferência a essas vidas em trânsito que, graças aos arquitetos chilenos e à sorte, saíram fisicamente ilesas de um dos piores abalos já registrados no continente.
na capital chilena, um dos poucos edifícios que sofreu danos importantes foi o aeroporto. para villoro e seus colegas viajantes a notícia foi péssima, visto que todos os voos comerciais foram suspensos e eles deveriam permanecer no chile até a sua reabertura em oito dias. muitos países conseguiram contornar as dificuldades aéreas causadas pelo pane do aeroporto e resgataram suas delegações antes da data calculada: alguns mais próximos mandaram aviões particulares pelo aeroporto militar, os argentinos voltaram por terra, a embaixada espanhola negociou um voo comercial da iberia… por sua vez, os mexicanos não foram contemplados com a ajuda rápida e eficiente do seu próprio governo. desamparados, tiveram que ficar no país até que a embaixada finalmente negociasse a saída de um voo comercial da aeroméxico, que decolou apenas no dia 4 de março, um voo que não foi registrado e no qual seus passageiros embarcaram sem passar pelo sistema do aeroporto - uma viagem não documentada. “a verdade é que não chegamos”, diz o seu amigo quando finalmente aterrissam no méxico.
no mesmo dia em que (supostamente) retorna ao seu país, villoro recebe uma mensagem do seu amigo jornalista: “vai escrever sobre o terremoto?”, ao que o escritor responde: “quando as minhas mãos pararem de tremer”. é impossível prever o próximo sismo, porém a cada dia que passa, falta menos um dia para ele acontecer - e simultaneamente, é mais um dia de estabilidade, mais um que o autor aproveita para passar tempo com a família, escrever seus textos e para usar o pijama que ganhou de presente de uma amiga após a viagem ao chile, outra coincidência fortuita que ele guarda para encerrar seu livro.
na graduação, frequentei um grupo de estudos sobre cinema e relações internacionais, e em uma das sessões, o professor passou “onde fica a casa do meu amigo?” (1987), de abbas kiarostami. o filme se passa na cidade de koker, no noroeste do irã, região que foi atingida por um terremoto de magnitude 7,4 em 1990, acontecimento que motivou o diretor a fazer outros dois filmes, no que se tornou a “trilogia de koker”.
motivada pela leitura de “8.8”, pensei em outras ocorrências artísticas de terremotos e decidi rever “e a vida continua…” (1992)3, o segundo da trilogia. feito no estilo de docuficção, o filme mostra a viagem de uma versão fictícia de kiarostami em direção a koker, acompanhado de seu filho, de um pequeno carro amarelo e do pôster com a capa de “onde fica a casa do meu amigo?”, seu filme de sucesso. cinco dias após o terremoto que atingiu fortemente essa região do irã, com o número de vitimas estimado em 50 mil, eles fazem uma excursão em busca de notícias sobre os protagonistas do filme, enquanto desviam de estradas bloqueadas e danificadas, procuram rotas alternativas e encontram vários moradores locais, que também testemunharam o terremoto, dividem suas histórias e fornecem informações ao longo do caminho.
é lindo acompanhar os encontros entre os dois e as pessoas que eles conhecem na jornada, como o senhor que carrega um vaso sanitário e para quem dão carona, o casal recém-casado ocupando uma casinha abandonada que ficou de pé, uma mulher e seus três filhos limpando alguns objetos, os meninos que também pegam carona depois, as meninas que lavam louça, o moço que ajeita o sinal da antena para que as pessoas possam ver o jogo de futebol na televisão das casas improvisadas… a cada nova parada do carro, percebemos que o objetivo do diretor não se resume a encontrar os atores do seu filme, mas a entender qual foi o verdadeiro impacto do sismo nessa região, na tentativa de montar um microcosmo de histórias diversas, interligadas pela experiência compartilhada e pela visão de quem nos conta.
a brutalidade do terremoto aparece de distintas formas. a mais evidente está nos relatos de perdas: irmãos, tios, filhos, parceiros, amigos, conhecidos, conterrâneos que ficaram presos sob o próprio teto cadente. cidades inteiras viraram pó e eventos traumáticos são relembrados pelos sobreviventes em todo o filme, com a perda material somada ao luto e ao deslocamento. há dor em todas as interações mas também há esperança, reconstrução, empatia. apesar da aparente simplicidade das cenas, é um filme comovente e profundo, eficaz na sua mensagem e devastadoramente belo.
sou apaixonada pelas imagens capturadas por kiarostami através das janelas do carro e do olhar dos protagonistas: as paisagens montanhosas quase inalteradas em contraste com as casas destruídas, pessoas tirando objetos dos escombros, estradas sinuosas, rostos e corpos resilientes; um retrato da vida que continua, pois o que resta é viver. o tremor já passou, o próximo é impossível de antecipar, o presente é um presente é o presente.

de acordo com o dicionário analógico de língua portuguesa, estão associadas à palavra terremoto as ideias de: revolução (mudança súbita ou violenta), destruição, violência, ruindade, fontes de perigo. associá-lo a conceitos negativos é inevitável por explicitar a nossa fragilidade diante do planeta, pelo rastro de sofrimento que deixa para trás e por tantos outros motivos que já sabemos. contudo, por meio da arte é possível compreender o terremoto para além da teoria, conectar-se com histórias de resistência, sentir-se abalada por imagens, sons e palavras, o que obviamente nem se compara ao tremor real, mas nos aproxima das pessoas que o viveram. é um tema delicado de abordar, e tanto villoro quanto kiarostami souberam tratá-lo com a seriedade que merece, sem abandonar a ternura no processo. um pouco de leveza se faz fundamental quando a situação é suficientemente dolorosa.
tinha pensado, inicialmente, que o terremoto serviria de metáfora nesse texto, que eu conectaria as obras com algum outro assunto, outra adversidade enfrentada pelo ser humano, mas foi apenas um descuido do meu lado estável brasileiro; ele já é o próprio assunto, e um inesgotável, por sinal. com apenas duas ocorrências sísmicas na arte eu já estourei o limite do email, então paro por aqui.

e só para não perder o costume musical, deixo aqui uma reverberação:
o centro de sismologia da usp tem um site que atualiza em tempo real as informações dos últimos tremores identificados.
antes desse livro, já havíamos lido dois textos do mesmo autor: “Iguanas y dinosaurios. América Latina como utopía del atraso” e “El rey duerme: crónica hacia ‘Hamlet’”. fica a recomendação pra quem manja de espanhol.
disponível somente no plex do nicoletti, infelizmente. se alguém quiser assistir, me manda um oi!




Muito bom texto!!
Também sobre as aulas de geografia, foi um alivio sonoro saber que o Brasil provavelmente nunca passaria por algo assim. Talvez uma das melhores noticiais que uma criança poderia receber, muito boa para esquecer o desespero de que o sol um dia vai morrer!
texto incrível! vou procurar o texto. tinha um amigo da minha mãe que morou na nicarágua e falava que amava o tremor do terremoto suave (mei maluco ele) mas por causa disso sempre quis saber um pouco como é (um desejo horrível)